sexta-feira, 27 de julho de 2012

Paranácine.

A correria dos últimos dias, ou das últimas semanas, paralisou momentaneamente este blog. Mas quem achou que ele estava naufragando, senganou. Ele mal saiu dos cueiros! Talvez demore um pouco, mas vou estar sempre postando alguma coisa por aqui. E a propósito, vocês viram que bonitinho? O contador passou de mil. Mas eu acho que 900 números foram meus, relendo o relido.

Para quem gosta de cinema, e quer conhecer um pouco sobre o fantasma que é o cinema paranaense (brincadeira, ele existe!), olha só:

http://www.paranacine.com.br/novo/historico.php#ancora

Só fuçar!

terça-feira, 22 de maio de 2012

Um ícone às avessas?

Aos 86 anos, Dalton Trevisan recebeu esta semana, pelo conjunto de sua obra, o maior prêmio literário da língua portuguesa: foi o vencedor da 24ª edição do Prêmio Camões de Literatura. Ano passado, o escritor já havia conquistado o Jabuti, na categoria de contos e crônicas, com seu livro "Desgracida", e agora, por unanimidade, é o décimo brasileiro a conquistar esta honraria, concedida pelos governos brasileiro e português desde 1988.

Ontem à noite, liguei a TV no jornal local, e o assunto era o mesmo. Mas, sendo Trevisan avesso às entrevistas, a matéria apresentava um amigo do escritor, falando sobre seu silêncio e sua reclusão. Lembrei de quando eu fazia o Ensino Médio, e meu professor de literatura contava histórias sobre a vida literária de Curitiba. Certa vez, ao avistar Dalton Trevisan na livraria, o professor se assustou, tremilicou as pernas e resistiu ao impulso de tietagem, por medo da reação de Dalton. Afinal, era o vampiro de Curitiba quem estava logo ali, fitando algum título livresco.

Esta semana, até o governador Beto Richa se manifestou sobre o assunto. Disse que o prêmio Camões é mérito do Dalton, mas é um orgulho para todos os paranaenses, pois a sua obra literária é um ícone do nosso Estado. De fato, para mim, a sensação de identificação gera um bem-estar íntimo, como se fosse eu mesmo quem estivesse ganhando os 100 mil euros.

Mas fiquei pensando aqui comigo: não seria Dalton Trevisan um ícone às avessas? É que seu preciosismo, sua vida nas sombras da Curitiba que não tem pinheiros, parece mesmo resistir ao ícone, denunciar os ícones como falsos, como pouco verdadeiros.

Logo essa ideia se esmoreceu. Pois o ícone é, antes de tudo, aquilo que evoca e representa alguma coisa - em nosso caso, um Estado brasileiro. E quem melhor para representar o Paraná do que um escritor que ninguém vê? Trevisan é o ícone de um Paraná que existe sim. Aquele Paraná que não faz barulho, nem gosta de aparecer.

E chega disso, que pra falar de Trevisan, é preciso muita discrição.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Poemeto matuto.

Inspirado naquilo que disse Vieira dos Santos sobre o Paraná do mileoitocentos, o professor Benatte, mano véio da parafernália paranista, fez um "poemeto", nas suas palavras, que segue aqui.

Que vocabulário resistiu ao tempo, neste Paraná tão fragmento??



Paraná, 1800 (segundo Vieira dos Santos)

Gente do mato se diz matuto
Papas se diz angu
Cântaro é pote
Gente triste é jururu

Coisa pequena é mirim
Coisa grande, guassu
Rapaz pequeno é piá
Rapaz negro, tapanhu

Ave de pio fino é seningas
Ave de pio grosso, terecas
Cachimbar se diz pitar
Gente amarela, papaterra

Unto de porco é banha
Diabo dizem baiaíba
Mato derrubado é coivara
Gente mesquinha, cauíra

Galinha sem rabo é sura
Cara suja é de tiriva
Jugo de boi se diz canga
Treze cavalos juntos, tropilha

Corno de boi é guampa
Coisa aguada na boca, taioba
Cesto se diz balaio
Gente inchada, nheimpã

Torta dos olhos se diz caolha
Sarna ou ferida é mombuca
Gente meio tola é boba
Olhos pequenos, de saquanhema

terça-feira, 24 de abril de 2012

Quando nem o café resiste ao frio.

Quando eu era só um piá pançudo - literalmente, pois quem me crê fora de forma é porque não conheceu meu eu infanto-juvenil -, um ingênuo mais ingênuo do que hoje, uma das coisas que me marcaram profundamente, como experiência de realidade alternativa, foi a observação de uma foto antiga de meu pai. Na foto, datada de 1975, ele - na época, militar - com outros companheiros de farda, ao lado de um imenso boneco de neve, muito bem moldado, por sinal. Eu me perguntei, em dado momento, que diabos acontecera ali, naquele lugar, pois que nunca havia visto neve, e continuo não tendo visto. Seria a foto de uma viagem para o exterior? Meu pai contou-me que eles estavam em Curitiba, cidade em que servira durante 5 anos para as forças armadas. Pois bem, coisa estranha, que eu não sabia que pertinho da minha cidade, num lugar de temperaturas sempre semelhantes, poderia um dia nevar (já que um dia já nevou).

Dizem que no passado, nas décadas anteriores ao meu nascimento, isto não era algo tão bizarro assim. Também não era comum, é evidente. Mas aquela nevasca, a de 75, foi a mais espetacular de todas. Em nosso senso-comum, atravessado por preconceitos e ilusões de europeidades, é certo que aquele acontecimento deve ter causado alguns orgasmos - assim como a lembrança dele ainda causa em alguns. É que por alguns instantes, ficamos mais distante de nossa realidade pobre e sofrida, para nos vermos como um espelho rachado de algum canto do continente europeu.

Agora, já crescido (mas também não tanto assim), revejo com outros olhos o acontecimento. E recordo mesmo - não sem a ajuda de vestígios do passado - que, para lá do glamour da neve caindo em Curitiba, no norte do Paraná, as manchetes anunciavam a maior geada de que já havíamos tido notícia no Brasil. A geada negra, como ficou batizada, dizimou as plantações de café, causando prejuízos incalculáveis aos agricultores do nosso Estado. O episódio gerou poema, livro, matéria de jornal... e gerou, recentemente, até filme!

Um dia, vou até o álbum de meu pai, digitalizo aquela imagem, e compartilho com vocês. Por hora, na ausência da foto que me cutucou na infância, deixo este vídeo, que reune uma porção de outras fotos (nenhuma, contudo, carregada de lembranças compartilhadas - o que confere sempre outro sentido). Mas como nenhuma alma viva ainda me veio instruir na postagem dos vídeos, o que ficam mesmo são os links:

Neve de 75 - fotos.
http://www.youtube.com/watch?v=gJIfp5hukyc

Reparem nos comentários, e o dito sobre a "Europa brasileira" logo se confirma. Saudosismo pouco é bobagem! Com sorte (ou azar), você encontra até uma disputa pelas temperaturas mais baixas... tolices do sul.

Ah, o filme mencionado é esse aqui ó, de nome Geada Negra. Vale a pena conferir!

E quando nevar eu volto!
(que o frio já está chegando).

quinta-feira, 19 de abril de 2012

FLICAMPOS!

A FLIP que se cuide, pois agora, na princesa mais judiada de todos os campos, que é a minha Ponta Grossa, a mais nova atração cult/aristocrática da cena será realizada: a FLICAMPOS (Festival Literário dos Campos Gerais). Prevista para acontecer na inauguração do Complexo Cultural de PG, que, é claro, atrasou e a inauguração foi adiada, o Festival vai acontecer em novo local. No Parque Ambiental (sic). Isso mesmo, só não perguntem como, que na hora alguém vai dar um jeito.

Pois bem, para aqueles que já estão agourando: o festival promete! Eu disse promete; se irá cumprir, só mesmo vendo pra saber. Entre os palestrantes, alguns nomes são Domingos Meirelles, Affonso Romano de Sant’Anna, Peter O’Sagae e Alexandre de Castro Gomes. Tem mais, e tem também outras atrações. Mas isso eu deixo pra vocês pesquisarem no site oficial, que é esse aqui.

Ah! O festival, que é também semana de cultura e feira do livro, homenageia o centenário de Jorge Amado e da nossa Helena Kolody, padroeira da poesia paranaense.

Tem como não ficar feliz com a notícia? Que renda muitos frutos (pois dinheiro é que não vai dar)!

segunda-feira, 2 de abril de 2012

O Paraná pelado.

A melancolia pela devastação e transformação das paisagens paranaenses passa não somente pela inundação das Sete Quedas e pela exploração predatória da araucária, mas também, e principalmente, pelo desmatamento de vastas regiões, que transformaram nosso Estado num auto-proclamado "celeiro nacional". Se vendemos barato, a nível de Federação, os grãos - como a soja -, em estado bruto, sem fortalecer a indústria brasileira, o preço pago pela plantação saiu muito caro. No texto que segue, Antônio Paulo Benatte, historiador vinculado à Universidade Estadual de Ponta Grossa, fala sobre o norte do Paraná e o processo que tirou a sua roupa, deixando-o peladinho, como o vemos hoje.

As transformações da paisagem no norte do Paraná (1930-1953)

Antonio Paulo Benatte (UEPG)

A (re)ocupação capitalista do território ao norte do estado do Paraná, a partir dos meados do século XIX, teve um profundo impacto sobre a produção de paisagens regionais. Conforme o avanço das “frentes pioneiras” – com seus fluxos de população, capitais, mercadorias, ideários e imaginários –, as paisagens foram sendo submetidas a um processo cada vez mais acelerado de criação e destruição. As transformações das paisagens rurais e urbanas no norte do Paraná foram documentadas em diversos registros memorialísticos, literários, fotográficos e “científicos”, principalmente depois dos anos 1930, quando se iniciou a fase de colonização dirigida. Em 1935, o geógrafo Pierre Monbeig, o maior estudioso das frentes pioneiras no oeste de São Paulo e norte do Paraná, constatou que “Se se tentar estabelecer o balanço da marcha pioneira, nos planaltos ocidentais de São Paulo e do Norte do Paraná ressaltará a obra destruidora dos pioneiros: a destruição da mata e, com isso, destruição da terra.” [Apud ADUM, 2008, p. 10]O agrimensor russo Eugênio Victor Lariónoff, funcionário da Companhia de Terras Norte do Paraná – a principal empresa colonizadora a atuar na região –, deixou-nos uma rica descrição da floresta tropical que cobria o território antes do seu desmatamento intensivo pelos “pioneiros do capital”. Em suas memórias, Lariónoff, com verdadeira nostalgia, destaca a riqueza da flora sistematicamente destruída. Note-se que os termos e as imagens utilizadas para descrever a natureza (“anfiteatro”, “massa”, “cortina”) implicam já uma humanização da natureza, rememorada a partir de sua extinção no presente:

"[A região era] uma imensidade verde de milhões de árvores que se assemelhavam a um grande mar verde. Parecia um grandioso e colorido anfiteatro que se perdia de vista nos horizontes longínquos... E era de se admirar! Árvores e árvores se sucediam, verdadeiros gigantes, algumas como a figueira branca, de porte majestoso, talvez alcançando uns quarenta metros de altura, seguida por peroba, cedro, jacarandá, cabreúva, pau-d’alho, imbuía e outras espécies arboriformes, acrescidas de milhões de palmeiras, estendendo-se entre todas uma rica vegetação rasteira, muito densa, ao passo que cipós e outras trepadeiras enroscavam-se e penduravam-se pelos troncos, ligando uns aos outros. A certa distância, essa exuberância de árvores entrelaçadas dava a impressão de uma massa verde, uma cortina compacta e impenetrável". [Apud IVANO, 2002, p. 125]

O historiador Rogério Ivano, comentando a descrição acima, faz ver que a idéia de inacessibilidade da floresta, “descrita como se nenhuma palavra conseguisse chegar em seu interior”, imprimia um tom épico à conquista da terra. A destruição era acelerada: “Na zona pioneira, a mata desaparecia sem que antes fosse contemplada, traduzida, tornada, ao menos, memória. Quem a via, sempre o fazia pela última vez.” [IVANO, 2002, p. 125]

Em outro testemunho, bastante melancólico, o ex-ministro alemão Eric Koch-Weser, fugitivo da guerra e do nazismo para o norte do Paraná nos anos 1930, descreve a verdadeira batalha contra a floresta nas áreas situadas onde atualmente é o município de Rolândia, surgido da colonização alemã. A paisagem, aqui, aparece sobretudo como uma paisagem calcinada, tal como as cidades européias bombardeadas por ataques aéreos:

"[Na] nossa mata virgem, que parecia existir de eternidade a eternidade, agora se intrometeu a colônia alemã com foice e machado. Zunindo em seu cair, os gigantes do mato tombam com tremendo estrondo. Quatro a seis semanas mais tarde, queima-se a derrubada. O aspecto não é dos mais agradáveis: o mato baixo em soqueiras carbonizadas no chão; árvores derrubadas, muitas vezes ainda seguras, em posição inclinada, por galhos fortes; tocos de tamanho impressionante; só algumas árvores gigantescas se erguendo ao céu, que se pretendia poupar na esperança quase inútil de conservá-las com sua beleza, apesar do seu isolamento e ainda que os seus troncos estivessem atacados pelo fogo; em seu total, o semblante de uma devastação miserável..." [Apud IVANO, 2002, p. 130]

As fontes escritas (assim como uma profusão de fotografias) seguem documentando a acelerada transformação das paisagens e dos significados que se lhes atribuíam, conforme as perspectivas. De modo geral, os relatos mais realistas – quer dizer, que guardam certa distância crítica em relação às mitologias e fantasmagorias do capital –, esses relatos documentam a imensa devastação do meio ambiente na região. Em menos de duas décadas, a floresta veio abaixo para dar lugar às “cidades-cogumelos”, dispostas “como as contas de um rosário”, e à “paisagem quadriculada dos cafezais” que preenchiam o horizonte. O antropólogo Claude Lévi-Strauss, de passagem pela região na década de 30, já formulava uma questão inquietante: “Veremos, dentro de 10, 20 e 30 anos a esta terra de Canaan tomar o aspecto de uma paisagem árida e devastada?” Em seu Tristes Trópicos, a descrição das mutações paisagísticas pela intervenção humana sistemática é rica o suficiente para que a citemos na íntegra:

"Quando se percorria a região a cavalo ou num caminhão, utilizando as estradas recém-abertas que acompanhavam as cristas dos montes à maneira das vias romanas na Gália, não era possível saber se o país vivia: os lotes alongados apoiavam-se de um lado na estrada e de outro no ribeirão que percorria o vale que ficava ao fundo; mas era embaixo, junto da água, que a instalação tinha começado: a derrubada ia subindo lentamente a encosta, de tal modo que a própria estrada, símbolo da civilização, ficava entalada na densa cobertura florestal que continuaria ainda durante alguns meses ou anos a coroar os cumes das colinas. Ao fundo dos vales, pelo contrário, as primeiras colheitas, sempre fabulosas nessa terra roxa, terra violeta e virgem, saíam entre os troncos das grandes árvores jacentes e das cepas. As chuvas do inverno se encarregariam de decompô-las em húmus fértil que, quase em seguida, elas arrastariam ao longo das ladeiras junto com o que alimentava a selva desaparecida cujas raízes já não estariam ali para retê-lo". [LÉVI-STRAUSS, 1999, p. 115-116]

Os geógrafos, mediante várias e sucessivas “tertúlias” pela região nova, foram os primeiros a chamar a atenção para o seu caráter racionalmente planejado. Essa racionalidade – a racionalidade da grande lavoura e do capital imobiliário-colonizador – determinou a forma das cidades e campos e, portanto, tiveram um profundo efeito sobre a produção das paisagens regionais. A geógrafa Lísia Maria Cavalcanti, em 1945, assim descreve a “zona pioneira” e o seu complexo urbano-rural:

"Trata-se de [...] uma zona de colonização dirigida onde tudo foi planejado, com antecedência, quando a mata virgem [sic] ainda não fora derrubada: o traçado das estradas de ferro e de rodagem a serem abertas nos espigões; a disposição das cidades, na distância conveniente, ao longo dessas estradas; o plano de cada uma dessas cidades; suas áreas urbanas e suburbanas; seu abastecimento de água e energia elétrica; a distribuição dos lotes agrícolas entre o espigão da estrada e os cursos d’água; a reserva de florestas; a reserva das cabeceiras pela Companhia, etc." [Apud BENATTE, 1999, p. 14]

Nem mesmo as cláusulas contratuais de reserva de florestas e das cabeceiras dos rios seriam respeitadas pelos “pioneiros”: no processo intensivo de compra, venda e revenda das terras – mercadoria tornada objeto de especulação –, bem como no comércio de madeira para as serrarias e na formação das cidades e das lavouras de café, a quase totalidade da Mata Atlântica da região viria abaixo, a ferro, fogo e fome de lucros rápidos. “Para quem muito viaja no interior do Paraná, nada é tão impressionante, nada tão comovedor como o rápido desaparecimento das nossas matas”, já alertava o geógrafo alemão Reinhard Maack em fins dos anos 40 [Apud IVANO, 2002, p. 131].

Em 1952, os repórteres Arnaldo Pedroso D’Horta e Rubem Braga, também em viagem pelo norte paranaense a serviço do governo paranaense, descrevem a transformação da paisagem e evidenciam o impacto sobre as sensibilidades de seus observadores. De exuberante, a paisagem tornara-se singularmente “sombria”. A passagem faz lembrar a obra de Frans Kracjberg, o “poeta dos vestígios”, composta com raízes e troncos de árvores calcinadas:

"Quando não se está em meio às plantações viçosas e verdejantes, que se abrem apenas para dar passagem à estrada de rodagem, a paisagem dessa região é singularmente sombria. Nos topos das colinas vemos, à volta, sobre outras colinas que se desdobram ao redor, os marcos que lembram a antiga floresta, destruída para dar lugar à civilização. Ficaram apenas aqueles paus secos e tristes, tortos e esgalhados, túmulos requeimados da mata que antes ali dominava. Parecem esses papéis dilacerados, de fogos de artifícios explodidos". [BRAGA & D’HORTA, 1953, p. 16]

Nas regiões novas do café, à medida que a colonização ia-se efetivando, as paisagens se sucediam de forma cada vez mais rápida. As próprias mudanças da paisagem urbana convertem-se em signos da mudança social. Em seu estudo sobre a memória coletiva, Maurice Halbwachs notou que um grupo urbano "não tem a impressão de mudar enquanto o aspecto das ruas e dos edifícios per­manece idêntico" ao que fora no passado. [HALBWACHS, 1990, p. 134] Em edição comemorativa da revista Ilustração Brasileira são descritas, dessa vez em tons extremamente ufanistas, as transformações da paisagem urbana no norte do Paraná quando das comemorações do primeiro centenário de emancipação política do estado (1953). Aqui, a paisagem é vista do ângulo trepidante do progresso e da modernidade no sertão. O texto destaca as mudanças na paisagem e na ambiência urbanas das “cidades do café”, tornadas evidências concretas da riqueza econômica e da vitória definitiva da civilização sobre o sertão “inóspito”. Nas cidades engolfadas pelo progresso, as mutações rápidas do tecido urbano criam e destroem paisagens:

"O Paraná vive hoje o “ciclo do café”. Nas terras do Norte, as mais férteis do globo, brotam cidades que rapidamente se consolidam em grandes centros econômicos e sociais. [...] Londrina é a mais importante das chamadas "cidades do café". Marcos prodigiosos da fecundidade das terras roxas do Paraná, são em grande número, hoje, essas pupilas da fortuna e do progresso, para as quais “as estatísticas já nascem velhas”. Onde recentemente eram densas matas, agora se erguem arrojados edi­fícios e se consolidam coletividades cultas e exigentes. O gráfico do progresso sobe espetacularmente. Londrina que, em 1938, era apenas um montão de troncos de figueiras e perobas derrubadas a machado e fogo, dá hoje a impressão de uma capital regorgitante. Cerca de trinta casas bancárias tiveram de aí estabelecer agências para atender o volume dos negócios. Centenas de ônibus e aviões chegam e partem diariamente, sendo o aeroporto local o quarto do Brasil, em movimen­to". [Ilustração Brasileira, 1953, p. 100].

Atualmente, e desde o início do processo de reocupação capitalista, se constata os impactos no ecossistema da região: alterações climáticas, poluição das águas, erosão dos solos, esgotamento da terra. Nos dias de hoje, as ilhas de vegetação nativa sobreviventes ao processo de colonização – como a Mata dos Godoy, em Londrina – tornaram-se, significativamente, paisagens turísticas.

Bibliografia

ADUM, Sônia Maria Sperandio Lopes. Historiografia norte-paranaense: alguns apontamentos. In: ALEGRO, Regina Célia et al. (Orgs.). Temas e questões para o ensino de História do Paraná. Londrina: EDUEL, 2008.BENATTE, Antonio Paulo. O centro e as margens: prostituição e vida boêmia em Londrina (1930-1960). 2ª ed. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1999.BRAGA, Rubem & D’HORTA, Arnaldo P. Dois repórteres no Paraná. Curitiba, 1953.
CHOMA, Daniel; COSTA, Tati; VIEIRA, Edson Luiz da Silva. Ao Sabor do Café. Fotografias de Armínio Kaiser. Londrina: Câmara Clara, 2008.
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.IVANO, Rogério. Crônicas de fronteira: Imagem e imaginário de uma terra conquistada. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 2002.O PARANÁ de 1953. Ilustração Brasileira. Edição Comemorativa do Centenário do Paraná. Rio de Janeiro, ano XLIX, n. 224, dez. 1953.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Ervilha da Fantasia.

O Paraná está forrado de bons escritores. Talvez esta afirmação carregue um certo exagero, mas tudo bem, digamos que há uma boa safra de escritores paranaenses por aí. Mais tarde, no além post, espero falar sobre alguns deles, mas não dá pra deixar de falar do Leminski primeiro. É que na minha humilde opinião, este bigodudo fantástico é a encarnação da nossa poesia, é a poesia viva (mesmo depois de morto).

Vale conferir o documentário Ervilha da Fantasia, feito para a TV, em 1985. Ele está disponível no youtube, e até os comentários são bem legais, como esse aqui ó:

"Estava assistindo sentado no sofá.
Pensei que tivesse travado o vídeo, mas não... era o fim do vídeo mesmo.
A teoria da relatividade se fez presente.
28 minutos que pareceram 30 segundos...
Obrigado!
filipeskaterock 5 meses atrás"

Agora, se alguém puder me ajudar, e contar como é que faz pra colocar o vídeo aqui no blog, eu vou ser grato, muito grato. Por enquanto, eu vou só mandando o link:

http://www.youtube.com/watch?v=zkl57-hC3ko

Aproveitem, pois tudo que o Leminski diz é poesia!